sábado, 11 de abril de 2015

Cara Frustração,


Há quanto tempo não nos falamos, hein?


Você não tem aparecido por essas bandas e, pra falar a verdade, também não tenho te procurado.


No começo dessa semana achei que fosse te ver. Eu e a Dani descobrimos que os dois portões do condomínio - de pedestres e o da garagem - estão quebrados e que tudo que nos separa do resto da Austrália nessas noites frias de outono é a singela porta do apartamento. Era a oportunidade perfeita para você aparecer.


Mas eu não dei brechas. “Estamos na Austrália. O que demais pode acontecer?”, repetia eu, em silêncio, diversas vezes. Só pra não ver a sua cara.


Então por que te escrevo, certo?


A verdade é que ontem senti sua presença. Talvez você nem estivesse lá, mas eu senti. Faltando 15 minutos para o meu turno começar, encontrar minha bicicleta sem a roda da frente, na garagem de casa, foi como te abraçar tão forte quanto sonho em abraçar aqueles que ficaram no Brasil, torcendo pela gente. Só que esse abraço eu não queria. Não tive escolha.


Subi correndo de volta para o apartamento e, nos 30 segundos que passei em casa, a Dani tirou de mim todo vestígio do seu abraço.


Bem sei que você só aparece quando não se espera. Não poderia ser diferente. Mas agora sei que você conhece o caminho. Não me pega mais desprevenido. Não me pega mais.


Beijos.

Eder

sexta-feira, 10 de abril de 2015

DANI VS INGLÊS

Me lembro de quando entrei no avião com destino à África do Sul –primeiro trecho da viagem para Austrália -  ouvi a última frase em português: Tenham uma ótima viagem!
O que? Estou indo para um país onde as pessoas falam inglês e eu só sei dizer: “My name is Dani.”?
What am I doing???????? (depois de dois meses se aprende alguma coisa, no dia eu pensei em português mesmo).

Eu já nem sabia mais o que estava sentindo, estava em meio aos soluços do meu choro de despedida, em pânico com o inglês extremamente específico dos comissários Africanos e achando que eu e o Eder éramos malucos de estarmos fazendo essa maluquice toda.

Ouvi o seguinte conselho 100x de diferentes pessoas:

- Só não pode se fechar no seu casulo, tem que sair, dar a cara a tapa e se fazer entender!  
Na teoria é fácil.

Pensando agora, dou muita risada do coitado do meu marido, no começo era como se ele não tivesse mais vida própria, ele era a minha voz na rua.
Ainda durante a viagem para cá, estávamos acompanhados da Soraia (mãe de uma brasileira que já está na Austrália há um ano) e funcionava mais ou menos assim:

Aeroporto de Johannesburg
Soraia: Ah, queria saber como é feito esse ovo decorado aqui.
Dani: O Eder pergunta, vai lá, amor!

Soraia: Preciso ver se consigo mudar meu assento na segunda parte do voo.
Dani: O amor faz isso, vai lá Eder!

Dani: Amor, pergunta pra ele quanto tempo é de viagem, se eu posso beber mais vinho, se eu consigo mudar a música. Eles têm cobertores? Quais tipos de café da manhã são esses?  Isso é leite? O que ele quis dizer? Ele me xingou? Você tá entendendo o que ele tá falando mesmo? Não parece que você tá entendendo. O que você perguntou? Você realmente disse o que eu queria?

 T A D I N H O, eu sei!

Mas quero me “vitimizar” um pouco. Poxa, não é fácil, sabe? Me sinto um peixe fora d’água.
Já briguei mil vezes com o inglês desde que cheguei.

- Seu ridículo! Você não faz o menor sentido, como a palavra dear pode significar “querida” e “caro”?
- Mas porque caralhas que o plural de mouse é mice?

Gente, não faz sentido, essa língua não faz sentido e como pensar diferente se os meus próprios professores falam isso?
Outro dia perguntei para o meu professor o “porque” de certa palavra no meio de uma frase e ele disse:
- Você precisa saber todos os ingredientes do seu almoço? Tem coisas que você não precisa saber, só come.

 C H O C A D A!
Mas tudo bem, estamos aqui há dois meses e eu voltei a ter minha própria voz, daquele jeito fofo de inglês “Lower Intermediate”, mas minha própria voz. Agora o Eder só trabalha casualmente para mim, consigo dar mais folgas para ele.
Brincadeira, amor, gostaria de te pedir desculpas em rede internacional, por te escravizar e obrigar a falar por mim tanto tempo.  Sim eu sei que eu não devia ter falado pelos cotovelos quando você era minha voz. Desculpa.

Éssidois.


DANI

terça-feira, 7 de abril de 2015

Acordo. É terça-feira.


De cara me lembro do filme de ontem à noite. Embora não seja verdade, sinto que não escrevo há anos. Penso na ideia que havia tido; escrever sobre a “segunda de páscoa” e o costume Australiano de transferir os feriados dominicais para a segunda-feira. Mas agora já é terça, não faz mais sentido.

E, mesmo que fizesse, já não gosto mais. Charlie Kaufman me confirmou: Era uma merda. A Dani tinha razão.

Saio da cama e coloco gelo no joelho machucado. O plano é usar esses 20 minutos e tentar ter alguma ideia, mas acabo pegando o celular e lendo notícias do Palmeiras.

Estou atrasado. Termino de me arrumar correndo, dou um beijo na Dani e tenho, ao menos, a decência de me lembrar do caderninho onde rascunharei minha ideia. Assim que tiver uma. Se...

Abro a porta. Chove desde a noite passada. Uma ideia passa rápida pela minha cabeça. Pego pelo rabo. Quase perco.
Talvez devesse ter deixado passar. Talvez seja muito ruim. Talvez. Mas eu gosto.

Na caminhada até o elevador tento amadurecer a ideia enquanto penso na falta que um guarda-chuva faz.

Entro no elevador. Aqui não chove. São 5 longos andares sem os pingos pra desviarem minha atenção. Aproveito ao máximo. Antes de chegar ao térreo decido levar a ideia à diante.

Na rua, ainda chove. Tenho pressa. Preciso de um lugar coberto pra começar a escrever.

O ônibus praticamente me espera chegar. Tenho 5 paradas pra rascunhar tudo. Não dá tempo. Desço no ponto mais perto do restaurante, mas fico nele, protegido da chuva transformada em garoa, escrevendo com pressa.


Ainda não tenho um final. Queria um bom, mas se demorar muito mais não vou ter tempo de cozinhar tudo que preciso para abrir o restaurante. Preciso terminar de qualquer jeito.

Eder.

domingo, 5 de abril de 2015

O dia tem 34 horas!

Estar na Austrália é uma mudança óbvia nos hábitos.
São tantas as constatações e sensações que ainda é difícil listar as diferenças, consequências e impressões.
Desde minha terceira semana aqui, tentava entender o que eu estava sentindo de tão diferente - tão rapidamente -, eu não conseguia explicar direito o que era porque era algo muito mais sensorial do que racional.
Voltando nas minhas conversas com o Eder, quando “Austrália” ainda era um possível plano, me lembro do principal motivo pelo qual cogitávamos sair do Brasil:

- Precisamos respirar!

 Sim, parece vago, mas faz todo sentido.
E era exatamente isso que estava acontecendo, estávamos respirando de novo.
Todos os dias, acordávamos, tomávamos café, eu ia para o inglês e o Eder trabalhar.

*Estudávamos e/ou trabalhávamos das 8h30 às 16, 17hrs;
*Nos encontrávamos e íamos para um parque ou algo assim;
*Voltávamos para casa;
*Cozinhávamos, lavávamos roupa...

E quando havíamos terminado tudo, ainda era 9 horas da noite, time perfeito para assistir nossas séries preferidas.

Depois de um tempo tentando entender minhas sensações, me dei conta: Aqui na Austrália o dia tem 34 horas!
Essa é uma das primeiras mudanças notáveis de se viver na Austrália.
O transporte público funciona com maestria e não existe trânsito (Já ouvi dizer que em Sidney tem), não precisamos sair com 3 horas de antecedência para nenhum lugar. Todas as horas perdidas no caos de SP aqui são convertidas em praia, pôr do sol no parque, ler um livro olhando o rio ou só bater perna na cidade.

Quando me dei conta do que estava acontecendo, percebi que em menos de 2 meses encontramos boa parte do que viemos procurar do outro lado do mundo: tempo para viver.

Dani