segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Hoje faz 6 meses que chegamos à Austrália.

Desses, demoramos uns três para reencontrarmos uma rotina, baixar a adrenalina e passar a excitação com a novidade.

Me lembro de, cerca de uma ano atrás, ainda no Brasil, quando contávamos tudo que nos tinha levado a escolher a Austrália e os mais preocupados perguntavam: Mas será que é MESMO desse jeito? 

Não tinha resposta. Hoje tenho: É!

Estávamos completamente certos sobre o que nos esperava aqui. País seguro e organizado. Com o mínimo de dedicação, encontramos trabalho sem dificuldades. Somos bem remunerados e temos tempo para fazer o que nos faz feliz.

Nesse momento estou no sofá de casa, com um bloquinho e uma BIC azul em mãos, fazendo uma das coisas que mais me alegro em fazer. Minhas preocupações existem, mas estão muito mais interessadas no próximo vídeo do canal do que no próximo shift no trabalho. E as ideias borbulham.

Estávamos completamente certos sobre o que nos esperava aqui. Estamos felizes e satisfeitos. Então marcamos um Skype com a família. A tecnologia nos coloca cara-a-cara, olho no olho. Nossos corpos se enchem de alegria e se preparam para aquele delicioso abraço que não vem. 

Que não veio ontem, nem mês passado. Que não vem há 6 meses.

O coração aperta tão forte que sentimos na garganta, os olhos se enchem de lágrimas e a perna falseia.

Estávamos completamente certos sobre o que nos esperava aqui.  


Eder.

sábado, 4 de julho de 2015

É muito fácil se acostumar com bacon.

Mas eu, realmente, achava que jamais poderia usá-lo como desjejum. Durante toda minha vida assisti filmes, séries, etc, com americanos se esbaldando em pratos de bacon e ovos fritos logo pela manhã e pensava: “Isso não é pra mim. Pão, manteiga, frutas e leite… Isso sim é café-da-manhã. Qualquer outra coisa fica pro almoço.


A Austrália me deu uma nova perspectiva. Algumas semanas trabalhando na cozinha de um hotel onde, logo pela manhã, eu já era aromaticamente estuprado pelo bacon frito e a vontade de tentar se instalou em mim.


Há duas semanas tirei a prova. Eu e a Dani fomos tomar um bom café da manhã no Dôme (Cafeteria de Deus que tem em toda esquina aqui em Perth) e eu decidi pelo “Big Breakfast”, um prato gigantesco com tudo que jamais esperava comer pra começar o dia: Bacon, ovo, salsicha, peixe, mushrooms, tomate e a infalível torrada.


Não quero mais outra coisa!


A verdade é que para se viver, por inteiro, a experiência de morar em outro país é preciso se entregar de corpo e alma. Ainda estou me acostumando a isso e vai demorar um bom tempo para que eu prove de tudo. Especialmente os tais dos salty candys (tipo uma jujuba, só que preta - nada atraente - e com sal).

Enquanto isso vou lutando para não ser só mais um brasileiro no exterior. A ideia é ser cidadão do mundo e cidadãos do mundo não comem só arroz e feijão.



Eder.


P.S.: Depois de ler esse texto, a Dani teve uma ideia. "Por que a gente não experimenta esses doces que você cita no final, gravamos tudo e mostramos pra eles?", disse a gênia. O resultado dessa ideia, você confere no vídeo abaixo!




quinta-feira, 11 de junho de 2015

A vantagem de ninguém ouvir seus pensamentos é que você pode selecionar as pessoas que sabem dos seus sonhos.


Acontece que sonhar é tão gostoso que às vezes a gente exagera - e isso definitivamente não é um problema - e acaba não tendo coragem de expressá-los para ninguém, nem para nós mesmos. A consequência disso é um milhão de vontades guardadas na mais funda gaveta do cérebro, a gaveta das frustrações. A cada desejo engavetado é um "e se" solto no nosso corpo e quando você menos espera, você já se tornou um completo ponto de interrogação ambulante.

Eu quase me tornei essa interrogação, mas um belíssimo heroi tatuado chegou para me transformar em uma baita duma exclamação!
Minha gaveta de frustrações está vazia e não porque todos os meus sonhos estão se tornando realidade e sim porque antes deu escolher se conto ou não meu novo sonho maluco, ele, meu heroi, já me contou o dele e a coisa mais linda do mundo é saber que é exatamente o mesmo que o meu!

O mais gostoso de sonhar não é - só - alcançar e sim a trajetória, seja ela qual for, é a hora que você ri achando a ideia absurda ou até quando percebe que é hora de sonhar algo novo.

Por favor, sonhe muito e se não quiser contar para ninguém, repete ele bem alto na frente do espelho, assim ele vai ficar tão grande que não vai caber em gaveta nenhuma.

Dani.

sábado, 6 de junho de 2015

Triste é ser ave que não voa

Essa frase surgiu ontem em minha cabeça e tem me perseguido desde então. Essa noite, quando apoiei a cabeça no travesseiro, minha mente foi longe e acabei entendendo o motivo.

Tudo começou comigo sentado em um dos meus bancos favoritos de um dos ônibus gratuitos que me leva, todo dia, de casa para o trabalho e vice-versa. Em um dos pontos, perto de uma escola, sobem quatro pessoas, dois meninos de não mais do que 7 anos de idade, o pai de um e a turrona mãe do outro. O menino e seu pai sentam-se imediatamente ao meu lado, enquanto a mãe e o outro garoto se acomodam alguns bancos à minha frente.

Os dois, colegas de classe, demonstram extrema empolgação pelo mesmo assunto: a aula de ciências. Nas palavras de um deles, eles nunca tinham visto tantos insetos diferentes. O pai, ao meu lado, instiga. Quer saber mais sobre os insetos; “Quantas pernas?”, “Tinham asas?”, “Qual a cor?”. Por outro lado, as três fileiras de bancos vazios não conseguem esconder o grosseiro desinteresse da mãe pelo assunto, Muito mais preocupada com o volume do filho.

Isso me distrai, quase me entristece. Sou levado rapidamente para a casa daquele menino e o dia-a-dia com aquela mãe. Mas sou resgatado pela pergunta do interessado pai: “E quais são as aves que não voam?”. Com um enorme sorriso no rosto, o pequeno dispara logo três: Pinguim, avestruz e mais algum que meu professor de inglês não me ensinou.

Antes que aquele momento pudesse me causar qualquer reação, sou levado novamente para os bancos da frente pela estúpida pergunta da mãe: “E o que você sabe sobre inseto? Nada!”


Viemos para o outro lado do mundo para termos tempo de fazer tudo que queríamos, aproveitar melhor a vida. A Austrália é o pai gentil que a pátria mãe não foi. O pai que instiga e incentiva.

Porque se o pinguim soubesse que é ave, faria de tudo pra voar.

Eder.

sábado, 11 de abril de 2015

Cara Frustração,


Há quanto tempo não nos falamos, hein?


Você não tem aparecido por essas bandas e, pra falar a verdade, também não tenho te procurado.


No começo dessa semana achei que fosse te ver. Eu e a Dani descobrimos que os dois portões do condomínio - de pedestres e o da garagem - estão quebrados e que tudo que nos separa do resto da Austrália nessas noites frias de outono é a singela porta do apartamento. Era a oportunidade perfeita para você aparecer.


Mas eu não dei brechas. “Estamos na Austrália. O que demais pode acontecer?”, repetia eu, em silêncio, diversas vezes. Só pra não ver a sua cara.


Então por que te escrevo, certo?


A verdade é que ontem senti sua presença. Talvez você nem estivesse lá, mas eu senti. Faltando 15 minutos para o meu turno começar, encontrar minha bicicleta sem a roda da frente, na garagem de casa, foi como te abraçar tão forte quanto sonho em abraçar aqueles que ficaram no Brasil, torcendo pela gente. Só que esse abraço eu não queria. Não tive escolha.


Subi correndo de volta para o apartamento e, nos 30 segundos que passei em casa, a Dani tirou de mim todo vestígio do seu abraço.


Bem sei que você só aparece quando não se espera. Não poderia ser diferente. Mas agora sei que você conhece o caminho. Não me pega mais desprevenido. Não me pega mais.


Beijos.

Eder

sexta-feira, 10 de abril de 2015

DANI VS INGLÊS

Me lembro de quando entrei no avião com destino à África do Sul –primeiro trecho da viagem para Austrália -  ouvi a última frase em português: Tenham uma ótima viagem!
O que? Estou indo para um país onde as pessoas falam inglês e eu só sei dizer: “My name is Dani.”?
What am I doing???????? (depois de dois meses se aprende alguma coisa, no dia eu pensei em português mesmo).

Eu já nem sabia mais o que estava sentindo, estava em meio aos soluços do meu choro de despedida, em pânico com o inglês extremamente específico dos comissários Africanos e achando que eu e o Eder éramos malucos de estarmos fazendo essa maluquice toda.

Ouvi o seguinte conselho 100x de diferentes pessoas:

- Só não pode se fechar no seu casulo, tem que sair, dar a cara a tapa e se fazer entender!  
Na teoria é fácil.

Pensando agora, dou muita risada do coitado do meu marido, no começo era como se ele não tivesse mais vida própria, ele era a minha voz na rua.
Ainda durante a viagem para cá, estávamos acompanhados da Soraia (mãe de uma brasileira que já está na Austrália há um ano) e funcionava mais ou menos assim:

Aeroporto de Johannesburg
Soraia: Ah, queria saber como é feito esse ovo decorado aqui.
Dani: O Eder pergunta, vai lá, amor!

Soraia: Preciso ver se consigo mudar meu assento na segunda parte do voo.
Dani: O amor faz isso, vai lá Eder!

Dani: Amor, pergunta pra ele quanto tempo é de viagem, se eu posso beber mais vinho, se eu consigo mudar a música. Eles têm cobertores? Quais tipos de café da manhã são esses?  Isso é leite? O que ele quis dizer? Ele me xingou? Você tá entendendo o que ele tá falando mesmo? Não parece que você tá entendendo. O que você perguntou? Você realmente disse o que eu queria?

 T A D I N H O, eu sei!

Mas quero me “vitimizar” um pouco. Poxa, não é fácil, sabe? Me sinto um peixe fora d’água.
Já briguei mil vezes com o inglês desde que cheguei.

- Seu ridículo! Você não faz o menor sentido, como a palavra dear pode significar “querida” e “caro”?
- Mas porque caralhas que o plural de mouse é mice?

Gente, não faz sentido, essa língua não faz sentido e como pensar diferente se os meus próprios professores falam isso?
Outro dia perguntei para o meu professor o “porque” de certa palavra no meio de uma frase e ele disse:
- Você precisa saber todos os ingredientes do seu almoço? Tem coisas que você não precisa saber, só come.

 C H O C A D A!
Mas tudo bem, estamos aqui há dois meses e eu voltei a ter minha própria voz, daquele jeito fofo de inglês “Lower Intermediate”, mas minha própria voz. Agora o Eder só trabalha casualmente para mim, consigo dar mais folgas para ele.
Brincadeira, amor, gostaria de te pedir desculpas em rede internacional, por te escravizar e obrigar a falar por mim tanto tempo.  Sim eu sei que eu não devia ter falado pelos cotovelos quando você era minha voz. Desculpa.

Éssidois.


DANI

terça-feira, 7 de abril de 2015

Acordo. É terça-feira.


De cara me lembro do filme de ontem à noite. Embora não seja verdade, sinto que não escrevo há anos. Penso na ideia que havia tido; escrever sobre a “segunda de páscoa” e o costume Australiano de transferir os feriados dominicais para a segunda-feira. Mas agora já é terça, não faz mais sentido.

E, mesmo que fizesse, já não gosto mais. Charlie Kaufman me confirmou: Era uma merda. A Dani tinha razão.

Saio da cama e coloco gelo no joelho machucado. O plano é usar esses 20 minutos e tentar ter alguma ideia, mas acabo pegando o celular e lendo notícias do Palmeiras.

Estou atrasado. Termino de me arrumar correndo, dou um beijo na Dani e tenho, ao menos, a decência de me lembrar do caderninho onde rascunharei minha ideia. Assim que tiver uma. Se...

Abro a porta. Chove desde a noite passada. Uma ideia passa rápida pela minha cabeça. Pego pelo rabo. Quase perco.
Talvez devesse ter deixado passar. Talvez seja muito ruim. Talvez. Mas eu gosto.

Na caminhada até o elevador tento amadurecer a ideia enquanto penso na falta que um guarda-chuva faz.

Entro no elevador. Aqui não chove. São 5 longos andares sem os pingos pra desviarem minha atenção. Aproveito ao máximo. Antes de chegar ao térreo decido levar a ideia à diante.

Na rua, ainda chove. Tenho pressa. Preciso de um lugar coberto pra começar a escrever.

O ônibus praticamente me espera chegar. Tenho 5 paradas pra rascunhar tudo. Não dá tempo. Desço no ponto mais perto do restaurante, mas fico nele, protegido da chuva transformada em garoa, escrevendo com pressa.


Ainda não tenho um final. Queria um bom, mas se demorar muito mais não vou ter tempo de cozinhar tudo que preciso para abrir o restaurante. Preciso terminar de qualquer jeito.

Eder.

domingo, 5 de abril de 2015

O dia tem 34 horas!

Estar na Austrália é uma mudança óbvia nos hábitos.
São tantas as constatações e sensações que ainda é difícil listar as diferenças, consequências e impressões.
Desde minha terceira semana aqui, tentava entender o que eu estava sentindo de tão diferente - tão rapidamente -, eu não conseguia explicar direito o que era porque era algo muito mais sensorial do que racional.
Voltando nas minhas conversas com o Eder, quando “Austrália” ainda era um possível plano, me lembro do principal motivo pelo qual cogitávamos sair do Brasil:

- Precisamos respirar!

 Sim, parece vago, mas faz todo sentido.
E era exatamente isso que estava acontecendo, estávamos respirando de novo.
Todos os dias, acordávamos, tomávamos café, eu ia para o inglês e o Eder trabalhar.

*Estudávamos e/ou trabalhávamos das 8h30 às 16, 17hrs;
*Nos encontrávamos e íamos para um parque ou algo assim;
*Voltávamos para casa;
*Cozinhávamos, lavávamos roupa...

E quando havíamos terminado tudo, ainda era 9 horas da noite, time perfeito para assistir nossas séries preferidas.

Depois de um tempo tentando entender minhas sensações, me dei conta: Aqui na Austrália o dia tem 34 horas!
Essa é uma das primeiras mudanças notáveis de se viver na Austrália.
O transporte público funciona com maestria e não existe trânsito (Já ouvi dizer que em Sidney tem), não precisamos sair com 3 horas de antecedência para nenhum lugar. Todas as horas perdidas no caos de SP aqui são convertidas em praia, pôr do sol no parque, ler um livro olhando o rio ou só bater perna na cidade.

Quando me dei conta do que estava acontecendo, percebi que em menos de 2 meses encontramos boa parte do que viemos procurar do outro lado do mundo: tempo para viver.

Dani

terça-feira, 31 de março de 2015

30 de Março de 2015, Segunda-Feira

07:00

Despertador toca. Soneca.

07:05

Despertador dela toca. Soneca também.

07:10

Minha soneca termina. Despertador toca. Soneca de novo.

07:45

Já passamos muito tempo fingindo que estávamos dormindo mais. Desligo os despertadores e olho em volta.Não é o mesmo quarto em que acordei ontem. É novo, mas ao mesmo tempo já tem quase 3 anos.

As 08:30 vou precisar sair sair para o trabalho. Mas se for rápido consigo ainda trazer café na cama pra ela.

Levanto da cama, abro a porta do quarto e dou de cara com a sala; Todas as poucas coisas que trouxemos do Brasil espalhadas por móveis Australianos que já estavam aqui antes da gente, que não têm a “nossa cara”, mas já são tão nossos.

07:50

Desisto do café na cama. Agora temos nossa própria cozinha e nossa própria mesa. Ela vai gostar de tomar café em uma mesa de novo. Sem nenhuma Australiana antipática passando com a cara fechada de um lado para o outro. Sem nenhuma indiana - que, por razões já explicadas nesse blog, prefiro não adjetivar - cozinhando uma comida fedida que impregna no nariz.

Ela vai gostar de ter uma sala quieta e limpa só pra nós dois. Eu também.

08:35

Um pouco atrasado, me despeço dela, pego nossa chave, fecho nossa porta e saio para mais um “primeiro dia”, louco para voltar pra nossa casa.


29 de Março de 2015, Domingo
07:30

Despertador toca. Soneca.

07:50

Levantamos. Está quase tudo pronto. Precisamos tirar a última roupa do varal, limpar a suíte e empacotar as coisas de geladeira.
As 10:30 o cara da mudança chega.

08:10

Volto com pressa para o quarto. Consegui não interagir com nenhum dos outros 5 habitantes da casa. Trago comigo dois pães com manteiga - margarina - e um chocolate quente grande pra dividirmos.

11:20

Tiago, o cara da mudança, coloca a última sacola na porta do apartamento, recebe os 65 dólares que cobrou por uma hora de trabalho e vai embora.
Hora de pegar tudo que é nosso e transformar esse apartamento todo montado em nosso lar.

11:30

Enquanto penso, em absoluto segredo, que jamais nos sentiriamos em casa, recebo uma ligação do Tiago. Preciso abrir o portão da garagem.

19:00

Com muito trabalho e criatividade, dentro das limitações encontradas, o apartamento é nosso. O Eder das 11:30 estava errado. Ele não contava, principalmente, com a astúcia da neta da dona Magnólia.

Abrimos um vinho e vamos para a sacada. Da mesma forma que tudo começou há dois anos e dez meses, numa varanda na Barra Funda.



Eder.











sábado, 28 de março de 2015

Cortando o cordão umbilical.

Pois, cá estamos.
Após seis corridos e intensos meses de planejamento, execução e despedidas, estamos prestes a completar dois meses na terra dos Cangurus.

Temos muita pauta para discutir em dois meses de vida nova, mas a que escolhi falar hoje é sobre o nosso tão doído “Até logo”.
Aquele “Até logo” que tira a coragem de muitas pessoas que anseiam em atravessar ruas, estradas, quiçá oceanos...

- Vamos para a Austrália!
- Pera, amor, nós vamos mesmo?
- Não sei, vamos?
- Vamos! Talvez.

Tomar a decisão é difícil, foram noites inteiras de conversas, questionamentos, pesquisas e quando a resposta é:

- Sim, nós vamos.

Chega a hora de dizer a eles: nossas fortalezas, nossos colos, os responsáveis pelas pessoas corajosas e sonhadoras que nos tornamos.

- Mães, vamos para Austrália!

Meu Deus, toda certeza que tínhamos juntado era feita de areia, o vento bateu e ela se espalhou por aí.
Aqueles olhares marejados dizendo “Não nos deixem” e a voz quase sem forças sussurrando “Nós apoiamos vocês”.

E elas, eles, todos nos apoiaram de todo o coração. E sem isso não estaríamos aqui.

Nossos últimos meses no Brasil foram intensos. Trabalhos, planejamento e execução de tudo para a nossa mudança, muitos litros de lágrimas (poderíamos ter resolvido a crise de água) e amor, muito, muito amor.

Deitamos no colo das mães cheios de medo, como quando éramos crianças.

Brincamos com os irmãos como se nossas únicas preocupações fossem a lição de casa que a professora passou.

Eles estão aqui, mesmo longe, eles estão com a gente.

A saudade arranca lágrimas, toda semana. E eu não sei se um dia iremos simplesmente nos acostumar com ela, teremos que esperar para ver.
Mas tenho sorrisos de orelha a orelha toda semana também, porque posso mandar mensagem para o meu irmão chorando de nervosa por conta de uma entrevista e ele estará lá, para me acalmar. Posso gastar todos os meus minutos do celular só para contar as novidades para a vovó que não tem whatsapp. Consigo atualizar a mamãe de tudo, todos os dias! E choro de rir com as melhores - não - piadas dos primos logo de manhã (ou a noite para eles).


Cortar o cordão umbilical não significa deixar alguém para trás.
Significa trazer com a gente todo o amor possível.

Dani

“Antes tarde do que nunca”

Não é, nem de longe, um dos meus chavões favoritos, mas foi exatamente assim que me convenci a começar esse texto, a documentar, de alguma maneira, nossa experiência em terras Australianas. Coisa que tínhamos prometido fazer desde o “dia 0”. E foi feito... De certa forma.

Com uma GoPro na mão e uma ideia pela metade na cabeça, eu e a Dani registramos desde a montagem das malas até nossas primeiras experiências em Perth. A intenção era - é - editar esses vídeos e subir tudo prum canal onde a família possa “matar a saudade” e outros aventureiros possam usar como inspiração.

Nunca editamos nada.

Realmente acredito que, em breve, editaremos. Precisamos achar tempo na nossa rotina ainda inexistente. Ou mesmo achar uma rotina no nosso tempo existente. Mas, por enquanto, fica essa sendo minha grande e única decepção até aqui.

O pior é não poder culpar os outros.

De resto, tudo dentro do esperado. Logo na segunda semana o sonho do “sub-emprego” bem remunerado se concretizou. Em dose dupla. Em menos de 15 dias havia me tornado um daqueles personagens, pai solteiro de jornada dupla, que serve mesas de dia e lava louça a noite. Exceto pelo fato de que não sou pai, nem solteiro.

Foi uma merda. E eu amei odiar tudo aquilo. Me fazia muito bem.

Em nossa terceira semana, comecei acompanhando a Dani na entrega de currículos em um restaurante mexicano e terminei como especialista em burritos. Minha habilidade, extremamente contestável, para fazer o simples arroz Brasileiro - e nada mais - aliada à minha sinceridade me colocaram na cozinha do “Guzman Y Gomez”. Meio fast-food, meio não-fast-food.

Logo de começo consegui boas horas de trabalho e tive que largar os outros dois sub-empregos dos sonhos para me tornar um superstar da guacamole.

Na primeira vez que fui fazer a iguaria mexicana sozinho, dobrei a quantidade de limão sem querer. Não quis contar que fiz cagada logo na primeira vez que não me deram uma babá e terminei assim mesmo. Todo mundo amou. Nunca mais parei de errar.

Nesse meio tempo de currículos, empregos e doses exageradas de suco de limão industrializado, muitas outras coisas aconteceram.

Quando chegamos, fomos morar por duas semanas com uma Australiana de 58 anos - dos quais, dois ela passou em Caçapava, interior de São Paulo -, toda metida a meninona dançarina de forró. Tipo “louca dos gatos”, só que sem os gatos.

A Dani diz que ela se insinuava pra mim. Prefiro acreditar que não, embora ache que sim.

Fugidos de lá, viemos parar numa share house com mais 5 pessoas, mas não quero falar sobre elas. Já fui acusado de preconceituoso muitas vezes na minha vida. Não quero acrescentar xenófobo - ou “indianofóbico” - à lista. Ainda mais agora que estamos saindo daqui para ter nosso próprio canto.

Mas hoje só posso falar que isso pertence ao futuro. Próximo, mas ainda sim futuro e esse blog só fala de passado. Próximo, mas ainda sim passado.


Eder.